ESTRANHA FORMA DE VIDA
ESTRANHA FORMA DE VIDA
Quando
acordo a pensar na vida, vêm-me à cabeça muitas memórias, e uma consciência da
etapa em que me encontro, o que me permite fazer uma revisão da matéria, ao
mesmo tempo que tento analisar o conjunto de circunstâncias das diferentes
etapas da minha vida. Posso dizer, que a comecei em África, propriamente em
Angola, onde vivi até aos dez anos, feita a quarta classe e o exame de admissão
ao liceu, que era assim que funcionavam as coisas. Para esse dito exame,
tivemos de percorrer cerca de mil quilómetros, a distância entre o Dundo (sede
da Companhia dos Diamantes), onde vivíamos, e Malange, viagem que durou três
dias, com paragem numa missão, que nos servia de pousada.
A partir
daí, o problema que se pôs era onde poderíamos prosseguir os estudos, que não
eram possíveis no local onde residíamos. Uma das alternativas era eu ir para um
colégio interno, em Sá da Bandeira, onde a minha irmã mais velha tinha estado,
ou ir definitivamente, para a metrópole, que era assim que chamávamos a
Portugal! Lembro-me bem dos pesadelos que tive a pensar que teria de sofrer o
que a minha irmã tinha sofrido nos anos em que se encontrou fechada no colégio,
em que só vinha a casa nas férias grandes! Situação que a deixou marcada para
sempre! Felizmente, os meus pais optaram por vir para Lisboa, e viemos então
para cá, tendo o meu pai que voltar ao trabalho depois de gozadas as férias
graciosas, assim chamadas, por serem usadas depois de dois anos e meio a
trabalhar no Hospital, que ele dirigia.
A
adaptação para mim, não foi fácil, pois estava habituada a uma grande
liberdade, bem como outro tipo de cultura social. Estranhei muito as cerimónias
e os comportamentos reservados a que não estava habituada! Em África era
tudo mais natural e espontâneo, mais sociável e aberto! Estudámos no Colégio
Académico feminino, onde completei o quinto ano. A minha irmã, como era mais
velha, ainda fez um curso de secretariado na Escola Lusitânia, o meu irmão mais
novo acabou por ser internado no Colégio Militar, pelo facto do meu pai se
ausentar, e acharem que era mais conveniente… Tempos difíceis para ele que
estava habituado a ser o menino, embora reconhecendo a mais valia daquela
instituição, de que tem boas recordações em termos de camaradagem.
Terminado
o curso da minha irmã e o meu liceu, os meus pais acharam por bem que fossemos
estudar para Londres, para aprender inglês. Por lá ficámos durante um ano, em
que fizemos algumas amizades, mais com portugueses, pois as inglesas que
estavam no lar de estudantes onde ficámos, não nos passavam grande cartão,
enquanto não falássemos bem a língua! Foi um tempo de grande
aprendizagem, em que tomámos consciência do que era viver em democracia, coisa
que pela nossa terra não existia. Foi também um tempo em que dei real valor à
família, pelas saudades que sempre ia tendo de casa.
Ao voltar a Lisboa, começou verdadeiramente, a minha
passagem à idade adulta, apesar de ainda ser muito nova. Comecei então a
trabalhar, o que aconteceu até me casar e dar início a outra grande etapa da
minha estranha forma de vida, que se desenvolveu de maneiras inesperadas e me
fez viver um sem número de aventuras, que não cabem aqui nesta sequência de
palavras, surgidas ao acordar! Viver não custa, o que custa é saber viver,
gratos pelas oportunidades de aprender e criar o círculo de energia que nos
serve de apoio e nos faz acreditar que vale a pena continuarmos prontos e
disponíveis para o que e vier!
OM SHANTI OM 🕉️

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