A CAMINHO

                                                          A CAMINHO

Partilhando uma expressão do meu sentir, num tempo passado…


O tempo não estava convidativo para passeios. Mesmo assim, pus-me a caminho para Almoçageme, sabendo que me esperava o tradicional “ar condicionado”, próprio da zona. Precisava fazer umas compras importantes e o supermercado de Cascais é bem fornecido e, além disso, já conheço o sítio das coisas, por isso fiz a passagem por lá. Desembarquei num estacionamento bastante composto e, como estava com pressa, nem carrinho levei, tão pouco um chapéu de chuva, esperando voltar antes de algum aguaceiro impertinente. Deslocando-me em passo um pouco acelerado, cheguei à zona onde me abasteço de materiais para os meus trabalhos de cerâmica e pintura. Procurava tintas para dar continuidade a uma nova forma de expressão criativa. Surpreende-me o prazer que estas artes me têm dado. Admiro-me com a leveza com que mergulho nestas ondas coloridas, tentando retratar as sensações que o mundo à minha volta me provoca. Sinto a mesma alegria que senti quando comecei a dar as primeiras aulas de yoga, tão inexperiente, mas tão contente! Sou bastante atrevida, porque não espero louvores, nem recompensas, para além do puro gozo sensual. Faço o que me impele o coração, e o corpo responde a este impulso irresistível, que dura o tempo da materialização dessa energia misteriosa e vibrante. Olho o papel e deixo que a mão busque as cores que a mente retratou. Não sei bem o que vai sair, nada é premeditado. Vejo-me ali estampada, tal e qual estou naquele momento, que me chamou sua, tal como as palavras que jorram da caneta, alinhando-se aqui.

Não há pressa de ver este novo dia chegar. Saboreio esta sensação devagarinho, sorvo o ar puro que escorre pelas minhas narinas. Como é diferente o ar do campo! Pode-se respirar sem medo, e com a certeza da renovação. Quando poisar a cabeça na almofada macia, e me aconchegar nos lençóis aquecidos pela manta angorá amarelo torrado, só tenho de esperar que este sonho continue a poder partilhar convosco o que de belo a vida me permite criar e ter. Com os meus olhos guardarei na memória as impressões mais fortes que conseguirei captar e, com elas, modelarei o barro com as formas mais puras, pintarei com as mais belas cores, e tocarei nos corpos doloridos, para os aliviar. Vou a caminho. Lá chegarei, aí onde me esperam os sábios e os santos. Não tenho pressa. As mimosas ainda agora começaram a florir e o sol em breve sairá de trás das nuvens, ressuscitando as folhas mortas. Vou a caminho, vou andando em corrida veloz, mas sem pressa. Fiquem aí para me ver passar…


                OM SHANTI OM

                  



 

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