LONDRES -RECORDANDO

 



LONDRES – RECORDANDO

Em Setembro de 1979, lá partimos outra vez, a minha amiga e eu, para Londres, afim de vivermos mais uma experiência para a nossa formação como instrutoras de yoga. Chegámos bastante tarde, com os atrasos do avião, típicos da fase política que estávamos a passar. A noite estava linda, com uma temperatura agradável, e o hotel, não sendo mau, pecava pela falta de higiene, com as toalhas da casa de banho a precisar de substituição. Comemos qualquer coisa e caímos à cama!

No dia seguinte, frescas que nem alfaces, saboreámos o pequeno almoço, numa simpática sala meio familiar, e partimos para as nossas voltas, antes de embarcar nos trabalhos aprazados. A manhã estava serena, e fomos de “bus” até Hyde Park, gozando a atmosfera reinante, deixando que a cidade tomasse conta de nós, numa atracção irresistível, com o coração a palpitar, pensando na expectativa da experiência que nos esperava. Caminhámos, caminhámos, tranquilas e sem pressa. Tantos mundos a passar pelo nosso próprio mundo!!! Satisfizemos a fome numa “Pizzaland”, e fomos em busca das malas para seguir até ao nosso destino, nos arredores de Londres, onde fica a Damacus House, uma casa católica de retiros.

Aí fomos recebidas por um grupo sorridente a darem-nos as boas-vindas. Este encontro fez-nos antecipar o acertado da nossa escolha. Paz absoluta, com a sensação de estarmos a milhas de distância do bulício da grande cidade. O jantar superou as nossas expectativas, com uma bela e requintada refeição vegetariana, prova de que as freiras são especialistas na matéria. Ao serão, tivemos o primeiro contacto com música indiana, uma novidade para os nossos ouvidos, e uma oportunidade para meditar, absorvendo aqueles sons, tão diferentes dos ocidentais. À noite, foi muito fácil adormecer…

De manhã, bem cedo, tivemos uma sessão de saudação ao sol, bastante puxada, sendo o único problema a falta de espaço, tantos eram os praticantes. O almoço temperou bem as forças, descansámos ouvindo música, e à tarde mais trabalho, com outro professor e diferente método. Nas pausas aproveitávamos sempre para nos estendermos na relva, fazendo bom tempo. O ambiente agradável, exigente, mas não demasiado. As noites eram passadas a ouvir palestras, a trocar impressões ou esclarecer dúvidas, pois a matéria era vasta e a nossa experiência ainda básica.

Tivemos aulas de Pranayama, com um professor que havíamos conhecido no País de Gales, no ano anterior. Muito competente e muito simpático. A meditação em movimento, foi uma agradável surpresa, e mais uma ideia para as nossas futuras aulas. Ali fomos percebendo a relação mestre-discípulo, observando a veneração que os alunos tinham para com o mestre. Numa conversa com um deles, manifestei algumas dúvidas sobre se deveria continuar naquela senda, por estar a ter muitas dificuldades em as minhas ideias serem aceites, o que me causava sofrimento. Ele, olhou-me nos olhos, sorriu e disse que isso não era possível, no ponto em que já me encontrava! Fiquei A pensar que, realmente, quem viu a luz jamais deseja voltar para a sombra… Decidi logo ali, que iria em frente, olhos postos no horizonte, sem nunca olhar para trás.

 

Os mantras que aprendemos nas meditações, o espírito que ali encontrei, com a firme convicção de ser aquilo que queria e sentia, deu-me a força e a vontade de seguir, acreditando nas ajudas que me permitissem ultrapassar obstáculos ou dificuldades. O caminho faz-se caminhando!!! As despedidas foram emocionais, tristes e alegres, com a consciência de estarmos irmanados, por isso, confiantes até ao próximo encontro. A missa a que assistimos, antes de partir, foi um bálsamo para a alma e o regresso a Lisboa, e à nossa vidinha, aconteceu sem problemas, certa de ir enfrentar algumas barreiras, mas com outra certeza e imensa vontade.

Repetimos a experiência nos anos seguinte, no mesmo lugar, e já com outra disposição, confiança e determinação. As amizades consolidadas, os olhos mais abertos, e o sentir mais apurado, com as lembranças bem estabelecidas. De regresso a casa, a família satisfeita com os pequenos nadas que comprei antes de embarcar, com os livros, mais as cassetes, com música própria, estava preparada para começar a vida, sem ter deixado escapar uma ida ao teatro, o que me enche sempre as medidas. Esta experiência foi uma mais-valia para a minha vida seguir o seu rumo.


                OM SHANTI OM

                          



 

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